Dê a quem você ama: Asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar! (Dalai Lama)

10
Jun 06

Anna Veronica Mautner @ -
amautner@uol.com.br  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2701200501.htm

Há tempo (põe tempo nisso) namoro a ideia de parar de tingir meus cabelos. No fim do ano decidi. Já pensando nisso, há mais de dez anos, troquei a tinta por colorante, imaginando que, quando o dia chegasse, o colorido fosse se esvaindo, deixando o branco ou o grisalho emergir naturalmente.
Pensava eu tratar-se de uma decisão de foro íntimo. Mas que nada! Não ouvi nenhuma palavra de apoio nem da família, nem de amigos, nem de conhecidos: "Você não pode!". "Não combina!". "Grisalho não é jovial!". "Branco põe para baixo!". Na minha santa ingenuidade, não atinava que estava afrontando um tabu. Entendi que a mulher não pode ser grisalha, mas no homem isso é charme e distinção. Existem brancos azulados, bem tratados, que inspiram respeito e até veneração. São os da matriarca, da veneranda chefe de família que ostenta um poder, mas não os da sexualidade.
Exibir os cabelos grisalhos é ostentar a fêmea morta no corpo vivo de uma mulher: é tabu

A questão não está apenas em "aparentar idade" - há quem defenda as rugas. Mas a transformação natural dos cabelos com a idade é uma afronta. Não chega a ser crime, mas senti que estava perto de cometer uma transgressão. Um homem - inteligente e humanista- chegou a enunciar, com todas as letras, que mulher não pode deixar de pintar os cabelos. "Põe uma hena", disse ele. E eu aqui pergunto a mim e a você: por quê?
Olhando a minha volta, só vejo cabelos tintos. É bem verdade que meu círculo de amizades inclui poucas figuras estilo "vovozinha". Minhas amigas são profissionais, além de mães e avós. Conheço algumas excepções, mas elas chamam mais atenção e atraem mais comentários desairosos do que uma "vamp". Escrevo esta coluna em 22 de janeiro. Veraneando à beira-mar desde 23 de dezembro, estou com os cabelos descolorados, de um jeito desgrenhado, caminhando para o grisalho e, portanto, a caminho de uma auto-exclusão social. Trata-se de uma condenação cruel. Podemos envelhecer, mas não tentar nem disfarçar é descaso.
Ostentar a fêmea morta no corpo vivo de uma mulher é tabu. Os homens grisalhos são charmosos, enquanto as mulheres grisalhas parecem lembrar alguma coisa da qual todos queremos esquecer. O cabelo grisalho parece remeter a alguma "cena temida" que conhecemos, mas não queremos rever.
Um colega baiano com o qual eu comentava minha desdita me contou um ditado local. Segundo ele, pêlos pubianos grisalhos, lá no sertão, eram o primeiro sinal de impotência senil.
A voz desse povo pode ser aquela que está me forçando a continuar a tingir os cabelos. Lembrei-me ainda do livro "Amêndoa", da autora muçulmana Nejdma, no qual a personagem principal relata sua dificuldade ao reencontrar um antigo amante. Dizia ela que o que mais a amedrontava em voltar para a cama com ele, 30 anos depois, era sua púbis esbranquiçada e rala. Será que vale para nós também? O grisalho é, sem dúvida, um movimento entre a cor e o branco. Ostentar o grisalho seria uma confissão de deserotização? Mas e o grisalho na cabeça do homem, por que pode? Tenho muitas questões e poucas certezas.
Continuando a pensar, parece-me pouco frequente (se é que existe) a imagem de uma púbis envelhecida na iconografia universal. Na pornografia é claro que não há, mas nem nas belas-artes me lembro de ter visto - e na história da humanidade a maioria dos pintores é de homem. Não tenho respostas, aceito contribuições. Dentro de dois dias tingirei meus cabelos. Se a cena é temida, abdico de agredir meus semelhantes com a minha presença.
A experiência foi válida. Conheci na pele o que é pretender quebrar um tabu e, ao mesmo tempo, conheci um tabu que eu não sabia que existia.
ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora).
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São Paulo, quinta-feira, 27 de janeiro de 2005
Anna Veronica Mautner @ -
amautner@uol.com.br  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2701200501.htm
 

NOTA:
Este texto foi-me repassado por uma amiga.
Respondi para a autora o seguinte, a meu respeito:

 

A feminilidade não é branca - mas os meus cabelos são de prata!

Foto aos 42 anos - Anúncio para farmácias

 

Laura_anuncio1983.jpgOlá, Anna Veronica Mautner.
Esta sua crónica foi-me transmitida por uma amiga da Internet.
Gostei de ler, sim senhor, mas a realidade é que, como pode ver, sou uma portuguesa bem disposta e de cabelos grisalhos.
Em Portugal costumamos dizer «cabelo sal e pimenta».
Começou por uma madeixa branca, mesmo na testa que parecia pintada.
Foi-se espalhando... e jamais pintei os meus cabelos.
O meu marido também tem o dele assim, sal e pimenta.

Nunca achei que valesse a pena enganar alguém, nem o mundo, nem a mim mesma.
Sou assim e pronto.
Eu mesma corto e arranjo o meu cabelo. Há mais de 30 anos que não piso num cabeleireiro.
Não me sinto diminuída por causa da cor dos cabelos e faço bom uso dos penteados que sei executar.
Quando o cabelo ficou mais branco, o que fiz foi evitar usar nas roupas e calçado as cores castanhas; passei aos tons de cinza que me ficam agora melhor.
Uso e abuso dos vermelhos e cor de vinho ou beringela porque ligam com o tom dos cabelos.

Pronto, era só isto que lhe queria dizer.
Por altura dos meus 42 anos, em que eu fazia alguns anúncios para revistas e TV, era sempre contratada para papéis de antes da pintura dos cabelos e para papéis de mulher de meia idade por causa de os usar sem pintura alguma.
Após os «castings», eu ganhava tudo porque as agências só encontravam mulheres da minha idade com cabelos pintados. Tinha imensa graça. Quando queriam alguém com cabelos sal e pimenta e ar jovial, lá ia eu.
Perdi um anúncio muitíssimo bem pago porque era preciso pintar o cabelo para filmar o «antes e depois» das tintas.

 Recusei e disse-lhes que não havia dinheiro que pagasse a prata dos meus cabelos naturais. hihihihihihi
Ficaram de boca aberta!

Cumprimentos e pode visitar os meus 20 blogs, se assim o desejar.
Terei muito gosto em ver por lá os seus comentários.
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25/04/2005
Laura B. Martins
http://almasdemulheres.blogs.sapo.pt

publicado por LauraBM às 16:03
*TAGS = Temas deste Blog - (Clique em cima) -

: ,

Crônica interessante!
Entretanto,acredito que tudo depende da forma como você carrega os seus cabelos grisalhos.
Eu, por exemplo, optei por não tingir. Tenho 30 anos e acho que estou no auge da minha beleza e sensualidade. Exibo meus cabelos brancos com o maior orgulho. Acho lindo mesmo...poderia tingir quando quisesse...Mas acho que me dá um ar muito chique!
Cuido do meu cabelo grisalho com o maior carinho (hidratações, reposições de queratina e shampoos específicos para não ficar amarelo são fundamentais).
Dessa forma, ao invés de pensar que os cabelos brancos em uma mulher é desleixo ou coisa de vovózinha, pense antes que a beleza vem de dentro pra fora!! Nunca ninguém me disse que eu devia tingir...muito pelo contrário, ouço elogios atras de elogios e o melhor de tudo é que isso me faz única. Em um mundo tão padronizado, o cabelo grisalho acabou me trazendo uma vantagem competitiva que eu jamais poderia imaginar!
E àquelas que, como eu, resolverem aderir a moda dos cabelos grisalhos, lembrem-se: É tudo uma questão de postura!!
Gb a 20 de Junho de 2007 às 22:25

Gostei da sua maneira de pensar e transmtir seus cabelos de sl e pimenta...os meus também são assim....da minha ex-mulher também...eu nuca pensei sequer ou tive tentação de colorir-los.Eu sou assim.....e até oiço por vezes que cabelo lindo...só com sal e pimenta...essa não sabia,agora vou deitar mais sal....
rafael a 2 de Março de 2007 às 09:29

Ula la...Havia esquecido desta foto, sim senhora...Mas olha, nao esta melhor que agora, viu...Diz o ditado portugues ou italiano, quanto mais velho o vinho melhor!!
jack a 16 de Outubro de 2006 às 18:25

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TELEFONES S.O.S.

"Vítimas de violência"

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