Dê a quem você ama: Asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar! (Dalai Lama)

10
Set 07

relogiodespert.gifSempre acompanho o programa que o João Gasparini  leva ao ar todas as noites, de segunda a sexta, das oito às dez, através da Rádio Serra Negra. É um programa alegre, descontraído, intimista como convém a uma cidade pequena, onde todos se conhecem.
Só que, às nove em ponto, o João apresenta um momento de oração, nos moldes católicos. Nesse momento, invariavelmente, eu choro. Um choro morno, sem desespero, de pura saudade, por recuperar na memória alguma coisa de um mundo que eu perdi, e que era muito católico.
"Salve a mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida..."
Revejo o oratório de minha avó Laura, o quadro de Santa Luzia, a gravura do anjo da guarda protegendo a menininha que ia cair num precipício. Mamãe rezando à Nossa Senhora Aparecida para que papai voltasse vivo da guerra na Itália. Tia Líbia no Santuário de Santa Terezinha, acendendo velas para iluminar o caminho das almas. Tio Chote assistindo contrito à dança do Moçambique. Tia Dita levando-me ao Convento do Carmo para rezar novenas. Enquanto choro, vou revendo outros tios, outras tias, suas devoções.

Naquele mundo devoto, só meu avô Nicolau destoava. Ele dizia:
– Não gosto quando dizem que sou um homem bom! Fico com medo de ir para o céu, quando morrer. Se for como na igreja, não vai ter nada do que eu gosto. Já imaginou ficar uma eternidade sem cerveja, sem jogo de bocha, rezando dia e noite no meio daquela velharada beata? Porca miséria!
Quando vovô estava morrendo, um padre foi chamado para ouvir-lhe a última confissão. Ao sair do quarto, com lágrimas nos olhos, o padre declarou à família:
– Acabo de ouvir a confissão de um homem quase santo! Só o Bispo será digno de rezar uma missa por ele...
E de facto o meu avô, um pobre marceneiro, teve sua alma especialmente encomendada pelo Bispo da diocese de Taubaté. Talvez porque tivesse conseguido ser bom pelo gosto de ser bom, sem por isto esperar recompensas na terra ou no céu...

Choro sim, e chorando lembro um trem.
Havia um trem, que todo ano me levava para a casa de meus avós. Era sempre noite quando eu chegava, e meu avô já estava esperando na estação. Era sempre madrugada quando eu ia embora, e meu avô ia té a estação para a despedida. Na curva, quando eu olhava pela janela, ele ainda estava lá, acenando com um lenço branco. Eu chorava, e sabia que ele também estava chorando.
Mas haveria um retorno, que hoje não há.
Que é que eu posso fazer em Taubaté, terra onde nasci e onde passava as férias, senão chorar junto às sepulturas de toda uma grande família que se extinguiu? Se é para chorar, choro aqui mesmo, com hora marcada, às nove em ponto. Pelo menos isso me deixa livre o resto do tempo, para rir, cantar e dançar, para celebrar a vida.
Boa noite, vovô! Quando meu trem chegar, espero que ele me leve directo para a estação onde você está, nem que seja só para passar umas férias.
----------------
9/10/2004
Ana França Suzuki


NOTA:
Crónica premiada no Brasil, da minha amiga Ana Suzuki

Esta crónica, publicada há muito  tempo em Serra Negra, e que até me ajudou a receber naquela cidade o prémio "Alto Relevo", em votação popular, é a minha predilecta, aquela que nunca me arrependi de haver escrito. É a que dedico a todos, mas de forma muito especial ao João Roberto Gasparini, por uma fase inesquecível de minha vida. Te amo demais, João!

publicado por LauraBM às 17:32
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Entrei pelo Blog do Floquinho, achei muito terna e sentida a sua homenagem. Linda mesmo.
Ana Suzuki a 15 de Dezembro de 2007 às 02:18


Laura querida,

Continuo a gostar dessa crônica - "Às Nove em Ponto". Saiu tão do íntimo, tão melancólica e verdadeira, que não há como dispensá-la. Obrigada
por publicá-la.
Ana Suzuki a 15 de Dezembro de 2007 às 02:17

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